Sobre homens e gaslighting

Snowflake Crystal Ice Cold Snow Nature Frost

Você vai chegar ao fim desse texto e vai ter vontade de gritar “white male privilege” ou algo do gênero. Se você tiver esse impulso, eu entendo. Eu mesmo quando pensei no que escrever tive essa impressão. Minha intenção é tentar minimizar esse viés ao máximo. Há quem diga que só de ter essa consciência já é um progresso. Mas eu sei que não chegamos lá ainda. Porém, se ao terminar de ler, você ainda sentir essa vontade, saiba que esse texto não era pra você. Mesmo assim, agradeço o seu tempo.

Eu enrolei o Bruno, meu amigo que é dono do Blog, por algum tempo antes de escrever aqui. Experimentei no Medium e finalmente tive coragem de sair do pseudônimo e da língua inglesa. Acredito que posso atingir mais gente por aqui, então esse vai ser o primeiro passo.

É curioso o tema “gaslighting”. Eu confesso que esbarrei nele, no que ele significa de fato, por causa da terapia. Procure no Google e você vai encontrar milhares de relatos de mulheres que sofreram nas mãos de homens abusivos. Eu não nego que isso aconteça. Mas daí a dizer que homens não sofrem com isso, é um outro universo. A verdade é que as estatísticas não dizem tudo: homens não reportam abuso, de nenhuma forma. Homens tem vergonha, mesmo os que sofrem com violência doméstica. Existe uma cultura machista e misógina por trás disso que eu nem vou começar a destrinchar porque não é o objetivo deste texto. Esse texto tem um objetivo específico: falar da minha experiência com o tema, sob o prisma masculino. Pra que algum dia, se algum outro homem passar por isso, possa quem sabe encontrar esse texto, e quem sabe, se identificar. Se foi assim que você encontrou esse texto, amigo, pode chorar. Não tem problema, eu (acho que) te entendo.

Eu me lembro que no meio da tempestade que eu me encontrei eu estava assistindo “Casa de Papel”. Uma das protagonistas, uma policial, uma mulher forte e não obstante, armada, relatava em uma cena como ela veio a se colocar numa posição de abusada pelo marido. Mas justo ela! Treinada em combate corpo-a-corpo, armada, forte, bem-sucedida! Como isso é possível? Pois é. Quando eu vi essa cena, eu comecei a tremer. Entendo na pele como isso pode acontecer.

Como ela  (a protagonista) disse, começa com uma coisa simples. No começo, é porque você “é muito sensível”. Depois é porque você “se apega a coisas do passado”. Eventualmente, era porque “eu dava um peso pras coisas que não existiam”. Tudo o que eu fazia era errado.

Eu fui alienado de diversas formas. Eu não podia ser visto em público. Era difícil definir o que “eu era”. “Ainda não inventaram um nome pra você”. “Porque você precisa de um título?” Eu juro: se eu fosse mulher, você encontraria MILHARES de relatos exatamente como esse. Por isso mesmo, eu vou prosseguir.

Na minha cabeça, e especialmente por conta da minha personalidade, eu sempre achei que tinha que haver uma saída, alguma solução. Eu estive casado por quase 13 anos, então eu sei que relacionamentos dão trabalho. E eu sempre estive disposto a fazer dar certo. Mas não havia conserto, não havia paz. Não havia a capacidade de perdoar.

Todos os meus elogios eram dispensados. Tudo que eu dizia era “falso”. É curioso como o senso de pertencimento e merecimento podem ser distorcidos. Ao fim, quando o “Eu te amo” sumiu, quando eu comecei a ser tratado pelo meu primeiro nome, igual a você que mal me conhece me chamaria na rua, eu comecei a surtar. E sim, me tornei inseguro.

E essa dinâmica ampliou ainda mais os problemas: quanto mais eu tentava me aproximar, mais aumentava a repulsão. A minha terapeuta me advertiu que isso aconteceria, mas é mais forte do que eu. Eu não estava pronto pra desistir. Eu perguntei, mais de uma vez, porque até os beijos tinham parado. Sim, coisas que um adolescente teria interpretado como um grande “red flag” estavam sendo largamente ignorados. É assim, queridos, que as pessoas se sentem presas. Elas se sujeitam a absolutamente tudo, porque apesar de estarem “morrendo de fome”, qualquer migalha reacende a esperança.

Eu comecei a acreditar que eu era realmente sensível demais, que eu tinha visões distorcidas a respeito das coisas, que no fundo ela tinha razão. Até que numa sessão a minha terapeuta me diz que um dos preceitos básicos da psicoterapia é justamente não desafiar a percepção de realidade do outro. Foi isso que me levou a pesquisar sobre o assunto e eu finalmente cheguei no “gaslighting”.

Pra quem não é familiarizado com o conceito, ele faz referência a uma peça de teatro americana, onde o marido vai gradativamente diminuindo a intensidade das luzes (gas light), e a mulher, percebendo a diferença na luminosidade, reclama ao marido, que insite que ela está ficando maluca. Eventualmente, ela se convence de que está louca. E essa é a experiência que eu descrevo pra vocês.

Aí então eu reagi. Confrontei. Gostaria de dizer que as coisas melhoraram, mas eu não estaria sendo sincero. Entre outras coisas, eu fiquei tão paranóico, que eu vasculhei as conversas, emails, memória, fotos, tudo, e refiz todos os eventos que tinham acontecido, um por um, num nível excruciante de detalhes. Sim amigos, eu fiquei realmente maluco. É esse o tipo de coisa que acontece com a gente. Quando confrontada com essa maluquice, a reação foi “agora você vai fazer gráficos, é?”

E no fundo, o que mais me desesperava era justamente isso: não conseguir entender o porquê. Talvez eu realmente estivesse obcecado com saber as respostas, os porquês. A verdade é que doi demais a gente se expor assim, se fragilizar assim e ver tudo ser estilhaçado. Quando eu disse que ela devia assumir a responsabilidade por ter rescindido as coisas que tinham sido ditas, a linguagem corporal e o olhar me disseram que no fundo eu era um dano colateral.

Há horas que a gente gostaria de ver o outro sofrer, minimamente que fosse, pra existir um senso de justiça, de reparação. Mas não há justiça, ninguém fica computando as nossas boas ações, infelizmente. E fica aqui o cautionary tale pra aqueles que talvez encontrem esse texto: não há volta, não há conserto.

E divido com vocês a parte mais triste nesse epílogo: no fundo eu só queria que as coisas voltassem a ser como antes.

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