O que Machado representa pra você?

O musical Hamilton (2015) mudou a forma com que muitos jovens enxergam um dos fundadores dos EUA, Alexander Hamilton. E muito disso se deve ao formato que Lin Manuel Miranda, o autor da obra, deu a peça da Broadway, transformando as rixas e brigas ocorridas durante o século XVIII em grandes batalhas de rap. Lin disse que a ficha caiu quando entendeu que a vida desses personagens não era diferente da vida dos gangsta rappers que resolviam suas divergências em versos ou tiros. “Hamilton foi um filho bastardo, órfão, que deixou a ilha caribenha em que nasceu para migrar e se tornar um dos líderes da fundação do país. A trajetória dele é como a dos ícones do rap.” disse o autor.

Mostrar que personagens históricos não são tão distantes da nossa realidade atual e, que o que hoje é visto como clássico já foi novo, ousado e até ‘revolucionário’ é um ótimo ponto de partida para aproximar o público atual (principalmente o jovem) da nossa história. E é aí que entra o movimento Machado de Assis Real. Eu, como tantos outros brasileiros, nunca vi o escritor Machado de Assis como um homem negro. Mesmo hoje lembrando de um professor tê-lo descrito como “mulato” lá nos anos 90, essa imagem não sobrepôs o tom de pele quase branco das fotos nas orelhas dos livros.  

Tá, mas o que isso muda na obra dele? Na obra não muda nada, mas a conexão do jovem (e principalmente no jovem suburbano/periférico) com ele caminha para outro patamar de intimidade. Hoje essa mudança já atinge em cheio os jovens do morro do Livramento onde Joaquim Maria Machado de Assis nasceu, no Centro do Rio. “Em vários aspectos, ele se parece com os jovens atuais da região, em sua maioria pobres e negros, que acabam largando a escola porque são obrigados a trabalhar cedo.” disse o professor Pedro Guilherme Freire em entrevista ao jornal O Globo. Freire dá aula na Escola Estadual Caic Tiradentes na Zona Portuária do Rio e traz as raízes do fundador da Academia Brasileira de Letras para a sala de aula. Assim, para os alunos, Machado deixa de ser só um cara que morreu há muito tempo e fala difícil e vai se transformando em um homem que, em outra época, foi como eu… e venceu as adversidades. Um cara que 180 anos depois da sua data de nascimento é lembrado pela sua produção cultural e não por conquistas esportivas. O que, convenhamos, é o mais comum nesse país.

Ok, então isso por si resolve tudo? Não, há sempre o risco de algum empolgado defensor da meritocracia acreditar que todo jovem nesta situação não só pode como deve ter as mesmas conquistas pessoais e profissionais que um gênio que trabalhou duro mas também teve sorte. Não podemos “ver Machado como um exemplo de meritocracia, achar que todos os jovens daqui podem ser iguais a ele se quiserem, quando na verdade sua trajetória é uma exceção.” Machado foi uma exceção, mas pode ser uma esperança. O movimento Machado Real é um ótimo começo. Mas eu ainda aguardo que um Lin Manuel Miranda nacional transforme o Bruxo do Cosme Velho em um grande ícone popular como ele merece.