‘Você é o Fredo!’ Breaking Bad | S02

 

Acabei de ver o S02E08 chamado “Better Call Saul” e digo: é um episódio fantástico. Sensacional. Nesses 47 minutos, toda a idolatria que eu vi a Saul Goodman fez sentido. A própria existência de um spin off baseado nele faz TODO O SENTIDO. Saul Goodman é um personagem muito carismático e isso fica evidente cada vez em que aparece na tela. O episódio é uma apresentação espetacular que começa numa cena tensa, cadenciada, que exibe toda a imbecilidade de Badger (o amigo tapado de Jesse) e termina com a sua prisão antes dos créditos iniciais. Era uma questão de tempo até algo do tipo acontecer com algum dos funcionários da dupla de empreendedores do crime. Aí você me pergunta: “Como funcionários? No fim da temporada anterior eles estavam tensos para conseguir entrega 1kg para o Tuco?!?” Pois assim como a S01 foi o momento de decisão de Walter ser ou não ser um traficante, esta temporada foi o momento dele decidir que tipo de traficante ele queria se tornar. Por isso, o diálogo no final do episódio quando Saul descobre a identidade e local de trabalho de White e se oferece como conselheiro não poderia ser mais significativo:

– O que exatamente você está oferecendo fazer por mim?

– O que Tom Hagen fazia por Vito Corleone?

– Eu não sou nenhum Vito Corleone.

– Claro que não! Nesse exato momento você é o Fredo. Mas com bons conselhos e as apresentações certas, quem sabe?

O advogado mostra uma leitura única do professor dentre todos os personagens da série até agora. Não sei se ele tinha noção do quão forte seriam seus argumentos mas “Você é o Fredo!” mostra uma precisão cirúrgica. Saul está em outro nível de profissionalismo. [Um parêntesis: Caso você não tenha visto ‘O Poderoso Chefão’, Fredo é o irmão de Sonny, Michael e Connie Corleone. Não é explosivo e brigão como o mais velho, nem cerebral e meticuloso como o mais novo. Fredo é o Breaking_Bad-S02 Fredo Michaelcara que vive como playboy, nunca toma controle de nada e, quando quer assumir algum negócio (mais por status do que por vocação), faz besteira, trai a família e complica tudo. Fredo é símbolo da inoperância na vida pessoal e profissional. É um incompetente, fraco e frouxo. Fim do parêntesis]. A comparação do personagem mais fraco da família Corleone para um indivíduo tão apegado a realização pessoal e tão vaidoso de suas conquistas não poderia ser mais precisa como provocação. Apesar de não ter dito uma palavra, eu garanto que Walter aceitou a proposta (de tê-lo como seu conselheiro) antes mesmo de Saul chegar até a porta e recitar seu slogan cafona.

Essa temporada começou exatamente onde acabou a outra: Tuco descontrolado socando seu capanga até a morte por nada. Na sequência,  cada um a sua maneira, a dupla chocada repensa a vida ao entrar no carro com a sacola de dinheiro. Jesse ainda com o trauma de ter sido surrado/hospitalizado pelo louco e o professor calculando rapidamente qual seria o número mágico pra livra-lo daquilo e deixar a família bem antes de morrer ($737k é o resultado). Mas o grande surto do maníaco/ drogado/ chefão do crime tem consequências para a dupla que vão além do breaking_bad-S02 Tuco ressucitasequestro no fim do S02E01. Ele gera uma série de desconfianças da família sobre Walter, coloca Jesse no radar de Hank pela primeira vez (e convenhamos, o fato dele achar o carro do Pinkman na casa do traficante no meio do nada com $70k dólares não ajuda) e ainda introduz o “Tio” do Tuco na história (algo me diz que esse velhinho aparentemente inofensivo vai dar trabalho no futuro). Como se tudo isso não fosse o suficiente, quando Hank mata o traficante ele abre uma porta para a própria profundidade do personagem (até então um ‘tio do pavê raso como um pires) e elimina a linha de distribuição dos dois aprendizes de barão do tráfico. Esse 2º episódio, com uma construção não linear, tem uma cena inicial que me deixou com a pulga atrás da orelha durante uns 30 minutos. Porque o carro pulava, aparentemente atolado na areia, com marcas de tiro e vidro espalhado pelo porta malas? Muito bom.

A dupla de empreendedores passa alguns episódios tentando se recuperar dos efeitos do sequestro até que S02E04 tem uma discussão feia. Ambos tem problemas em casa (Walter com a esposa e Jesse com os pais) e o estresse atrapalha a comunicação. Eles não se entendem. Na verdade se desentendem mais a cada contato. E Walter mostra que quanto mais o sr White sofre em casa, mais o Heisenberg é agressivo na rua. E nesse momento eu entendi que ele não é uma boa pessoa. Se não fosse o suficiente, lembrei que todos os recados que ele escreve nas provas dos alunos são hostis (até nas provas do Jesse era assim) e me dei conta que Walter White sofre da ‘síndrome de porteiro de boate’ ou ‘síndrome do pequeno poder’. Explico, ele só se porta de maneira dócil quando se vê em posição frágil. Assim que está em situação superior ele passa a destratar os demais. E é o que sempre faz com o sócio, o inseguro e confuso Pinkman. Passada a discussão (na porrada) entre a dupla, surge a dúvida: Eles podem produzir mas como vão distribuir? Arrumar um novo distribuidor psicopata? Nesse momento e pela primeira vez até agora Jesse dá a sugestão ousada: ser o Tuco e montar sua própria rede nas ruínas do império recém caído (vale lembrar que além do traficante grande parte de sua turma foi presa pelo DEA de Hank). A ideia seria ótima se ele 1. tivesse experiência 2. não tivesse colocado o ‘trio ternura’ (Skinny Pete, Badger e Combo) como seus ‘caporegimes‘ e 3. a ganância de Heisenberg não viesse bater a porta assim que o negócio prosperasse.

breaking_bad-S02 pinkman STOP.jpg

O roubo do casal de viciados a Skinny Pete e a pressão de Walter por uma reação dura do novo ‘chefão’, tentam trazer a tona um lado violento quase inexistente em Jesse. Ao contrário do sócio eu vejo nele uma pessoa boa, fiel aos amigos, sem intenção de passar ninguém pra trás. Obviamente metido com várias coisas erradas e andar frequentemente drogado não ajudam.. mas ele tem uma essência não violenta. Ele tem muitas dificuldades de cobrar o casal (principalmente por causa da criança que vivia na casa inóspita dos dois) mas o próprio estado alterado e desesperado deles ajuda o desfecho trágico (homem morto com um caixa eletrônico na cabeça, mulher presa e criança provavelmente levada pela assistente social). Apesar de ter saído de lá com mais dinheiro do que deveria, Jesse sente a situação. E reage da única forma que sabe: se drogar mais.

E Heisenberg assume temporariamente a distribuição usando, inclusive, o evento com a máquina ATM para capitalizar a fama de mau do sócio. O lado negro de Walter começa a dar as caras mais uma vez quando ele se vê pressionado pela Gretchen (eu SABIA que tinha uma tensão sexual aí!) para contar a família de onde sai o dinheiro para o tratamento. O professor mostra seu lado orgulhoso mais uma vez mandando um grande “foda-se!” e, apesar de não entrega-lo pra família a ex-sócia anuncia que vai cortar a ajuda. Walter consegue se virar com Skyler e, como sempre que pressionado em casa, ele compensa na rua. Heisenberg resolve expandir os negócios para outros territórios e coloca mais uma vez Jesse numa situação em que ele se sente desconfortável.

Um dos arcos mais interessantes da temporada pra mim (até aqui S02E08) foi do Hank. Considerava apenas o cunhado chato das piadas fora de hora e que contava vantagem nos almoços de final de semana. Como disse, a morte de Tuco o colocou como um personagem mais humano ao sofrer com isso e a não se orgulhar do acontecido (pelo menos não quando está só dado que, por exemplo, joga o presente bizarro dos colegas fora). Ver o policial completamente desajustado (com os problemas da mulher e agora) com os novos colegas de trabalho na fronteira me deixou mais simpático (e curioso sobre) a trajetória dele. O tempero extra foi que quando ele estava no pior momento junto a nova equipe, a reação adversa de ver a cabeça do informante sobre a tartaruga o salva da explosão. Salva sua vida mas o coloca num cenário ainda pior de estresse pós traumático e vemos a conversa inusitada de Hank com Walter enquanto sofre com as memórias do colega sem perna, o sangue, os mortos, o caos da fronteira… porque Walter não quer ajudar o cunhado. Ele quer mostrar que é equivalente a ele e quem sabe até superior. Ele quer dizer que também passou por coisas semelhantes mas consegue se controlar. Ali ele ainda é Walter. Posso dizer que neste momento eu tenho uma pena do desajuste do Jesse, o Walter me incomoda pouco, a chatice da Skyler e a falta de noção da irmã irritam demais. Ah, o silêncio desconfortável da Jane (a Jessica Jones, vizinha do Pinkman) me causa estranhamento. Mas ela parece uma pessoa legal pra ele. A grande dúvida é o quão grande eles serão e qual o papel de Saul nesse novo recomeço. Ou seria, nesse processo de profissionalização?


O trecho final da temporada (que acabei de ver) tem um conflito levantado pelo consigliere e potencializado pela leitura de um leigo de um exame de imagem: Walter acha que vai morrer logo e corre para produzir toda a droga que puder em “4 dias”. O episódio mostra mais uma vez o quanto Walter despeja suas insatisfações nas pessoas em situação mais frágil. Jesse constantemente sofre com isso e até agora não consegui decidir se ele gosta do rapaz ou se apenas é conveniente ter um sócio que “faz o que eu mando“. Acho que as duas ligações do telefone de Walter para Skinny Pete (que não ajudaram em nada no fim das contas) ainda vão render no futuro. Mas os $672k dólares de metanfetamina produzidos pela dupla trazem pesadas consequências quando colocamos a melhora “inesperada” do professor na mistura: Walter não sabe como reagir a vida quando esteve tão perto da morte. Imagino que deve ser complicado porque você não volta pra onde estava. Você não é mais o mesmo… nada é mais a mesma coisa. E aí Heisenberg assume pra expandir ainda mais os negócios. Agora para territórios já ocupados. A ganância do alter ego do professor custa a vida de Combo e consequente destruição do que restava da rede distribuição de Jesse (que já estava sem Badger desde a prisão deste e agora tem a desistência de Skinny, com medo).

breaking_bad-s02 Pollos

Outro ponto de atenção é o surgimento de Heisenberg pela primeira vez na casa da família White. Tanto quando aceita uma cirurgia de $200k dólares sem nem consultar a esposa ou simular um esforço para conseguir o dinheiro quanto na cena da festa de ‘boas noticias’ em que Walter tenta disputar a atenção de Walter Jr (ou Flynn, apelido símbolo da vontade de distanciamento do pai) com o cunhado Hank embebedando o jovem. Dali eu passei a torcer pro Walter se ferrar. Muito. Cada vez mais egoísta e vaidoso, além da briga pública com o cunhado ele 1. confronta um concorrente na loja de ferragens e vai até o estacionamento para espantar a dupla; 2. se recusa a aceitar os conselhos de Saul para justificar o dinheiro em casa (WW quer que o dinheiro seja reconhecimento do seu “trabalho”) e 3. tem um diálogo absurdo com a esposa quando discutem o site de doações criado pelo filho para salvar o pai:

– Skyler… é caridade.

– Porque você diz isso como se fosse um palavrão?

O homem que não aceita caridade mesmo a beira da morte, Walter vira pai novamente no meio de uma missão difícil e consegue um pequeno milagre vendendo todo o estoque de metanfetamina para o novo distribuidor apresentado por Saul: Gustavo, o dono da cadeia de restaurantes Los Pollos Hermanos. Ele se mostra muito mais experiente, capaz e precavido que o professor recém chegado no mundo do crime. Não tenho dúvidas de a frase “nunca confie num viciado” ecoou na cabeça de Walt quando ele tomou a importante decisão de não agir num momento crucial. E é também neste mesmo momento que Jesse passa por mais uma jornada de drogas pesadas que arrastou a até então equilibrada (apesar dos silêncios estranhos) vizinha. A nova versão da Jane coloca heroína na vida de Jesse, quase atrapalha a grande entrega de Walter e coloca tensão na dupla de sócios mais uma vez. Não sei se Walter segurou o dinheiro para evitar que Jesse se afundasse mais no vício ou se tinha a intenção de roubar o dinheiro mas enquanto vejo os episódios eu não gosto nem um pouco de Walter. Pensando somente na droga e o quanto os $480k dariam liberdade ao vício, a ‘nova Jane’ resolve chantagear o professor e ameaçá-lo mesmo quando ele entrega o dinheiro de Pinkman. Curiosamente o pai da jovem numa conversa informal de bar faz Walter voltar (‘nunca se abandona a família’) até a casa do sócio e a tomar a decisão conveniente de apenas assistir a namorada de Jesse morrer.

O último episódio nos traz Jesse num novo poço de drogas ao ser resgatado de uma cracolândia por Walt (ainda não sei se ele gosta ou só quer um parceiro fácil de lidar). Hank mostrando que não comprou a prisão do Heisenberg falso sugerida por Saul. Skyler com sentimentos dúbios em relação ao novo/antigo chefe (que está sonegando impostos). E Walt Jr cada vez mais feliz com o sucesso do site de doações para ajudar o pai (será que ele aceitou a proposta do advogado para “esquentar o dinheiro” via PayPal?). O episódio termina com um acidente aéreo provocado pelo pai da Jane que explica todas as cenas do urso rosa (bem) espalhadas por tantos inícios de episódio da temporada. Só que muito mais impactante que a explosão nos ares foi a declaração de Skyler dizendo ter descoberto que Elliot e Gretchen não pagaram nada do tratamento, que sabe que Walter não esteve na casa da mãe durante os “4 dias fora” e que ele disse em meio aos efeitos da que tinha um outro telefone. E agora, confrontado pela mulher com seu envolvimento com atitudes ilícitas qual será a reação de Walter White? Ele optará por ser Michael ou Fredo?


Continua…

Caso tenha perdido as impressões sobre a S01 veja aqui.

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