Porque torcemos por Dexter?

Dexter Morgan é um especialista forense dedicado a análises de sanguíneas e entender como ele (o sangue) conta a história de uma cena de crime. Ele leva uma vida normal, faz seu trabalho com (sinistra) maestria, tem uma namorada bacana, leva rosquinhas para seus colegas da polícia de Miami, sai pra beber com eles às vezes, tem um bom relacionamento com a irmã… é um sujeito comum. Só que há um outro lado pouco conhecido neste indivíduo. Dexter é um psicopata, não tem nenhum sentimento por nada ou ninguém e aprendeu com seu pai adotivo, o detetive de polícia Harry Morgan, a matar e jamais ser preso. Aí você pergunta: que pai louco é esse?
Bom, não foi do nada que isso aconteceu [e preciso avisar que teremos spoilers da 1ª temporada]. Ainda criança, Dexter foi encontrado dentro de um contêiner numa gigante poça de sangue da sua mãe, assassinada de forma brutal por traficantes alguns dias antes. Harry, que cuidava do caso, o encontrou lá e o levou pra casa onde foi adotado pela família Morgan. Anos depois, os traços da (futura) vida assassina começaram a aparecer no jovem Dexter e não demorou até o pai entender que um dia ele cruzaria a linha inevitável e mataria uma pessoa. Com isso em mente, Harry ensinou a Dexter como funciona uma investigação policial e, consequentemente, como ele deveria agir para matar sem deixar evidencias e jamais ser preso. Pra completar o quebra cabeças, em outro momento, o pai-policial desencantado com a justiça após ver um criminoso sabidamente culpado escapar por maneiras legais, resolve canalizar o desvio do filho pra “acertar” o que a justiça não fez. Com tudo isso encaminhado surgiu então o Código do Harry.  
O código do Harry é um guia de conduta criado pelo pai para que o filho possa ‘ser quem ele é’ de forma “justa”. Ele tinha itens como:

  • Não é permitido matar inocentes. Nunca;
  • Leve tempo e tenha certeza que é a pessoa certa, tenha evidências;
  • Seja extremamente cuidadoso com o assassinato e mais importante com a preparação;
  • Lembre-se sempre que você controla seus impulsos para matar, eles não te controlam;
  • Finja emoções para parecer normal;
  • Nunca seja pego;
  • Quando estiver em um teste de personalidade psicológica, sempre responda com o oposto do que você sente.

No seu dia a dia, por ter acesso ao banco de dados da polícia, Dexter prioriza pessoas que mataram, não foram condenadas (algumas sequer foram descobertas) e voltarão a matar. Confirma suas teorias com exames de laboratórios (não autorizados pela justiça) e seguindo o assassino para mapear/confirmar seu modo de operação em busca de uma nova vítima. Claro que o fato da vítima do episódio piloto da série ser um professor pedófilo te ajuda a simpatizar com nosso querido serial killer vingador. Quem não pensaria, mesmo que por um momento, que o mundo seria melhor se esse tipo de individuo estivesse morto? A questão é que, com o passar do tempo, é o código que permite que Dexter se diferencie das pessoas que ele mata. E em determinado momento, a conveniência de matar alguém que pode prejudicá-lo se mostra uma porta para um ‘jeitinho’ nas regras. É o “nunca seja pego” vs “não mate inocentes”. [Não, ele não mata e permanece fiel ao código.]

Acho que o divertido na série era como ela se valia da falta de sentimentos do protagonista para nos explicar a validade dessas emoções. Era uma forma de colocar luz em algo que normalmente você vive sem refletir sobre. Por exemplo, o que define “família” são laços sanguíneos ou uma vida em comum? Porque as pessoas dão tanta atenção aos relacionamentos amorosos (e sexuais)? Qual sua responsabilidade ao construir a sua própria família? O quanto sua crença religiosa (ou falta de) deve influenciar diretamente seus filhos? Até onde você pode dizer que alguém te ama se ela não conhece seus problemas mais profundos? Porque existem regras para viver em sociedade?… eu vejo que o que Harry fez foi criar um contrato social para seu filho. Algo que possibilita a vida com outras pessoas sem deixar que os impulsos predominem, algo que faz dele uma pessoa normal aos olhos de todos e menos execrável, aos olhos do espectador.
Sim, você torce por ele porque ele vai atrás do que a justiça “comum” não vê. Você torce por ele porque não mata inocentes, porque se certifica da culpa de seu alvo e da sua intenção de repetir o crime antes de agir. Você torce porque ele representa, num modelo extremo, alguém que é (a sua maneira) justo e infalível. Repare que todos os motivos para você gostar do Dexter estão no código criado pelo seu (falecido) pai e seu respeito em segui-lo. Do contrário, ele seria tão desprezível quanto sua longa lista de “vítimas” recheadas de assassinos psicopatas. Ou seja, você gosta dele porque ele segue apesar de infringir a lei ele segue um conjunto de regras que você, lá no início, aceitou. E, como diria o Coringa em ‘O Cavaleiro das Trevas’, as pessoas não se espantam tanto com a realidade quando ela segue a expectativa… “It’s all part of the plan”. 

Agora reflita: o que impede o fora da lei Dexter de fazer o que quiser e expandir o conceito de criminoso que merece estar na sua mesa? O que impede Dexter de priorizar “não seja pego” em detrimento da preparação do “kill room”? Que força (além da certeza de que seu pai é a bússola moral correta) o separa dos vilões da série? Até para o expectador que já comprou a validade do serial killer amigo da vizinhança, a linha que o separa do caos é muito tênue. E, pensando no nosso querido mundo real: Quem guarda os guardas? Quem vigia os vigias? 

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