Um fim, um meio e um princípio.

Whiplash CartazUm sonho. Seja um sonho cultivado desde criança ou um sonho recém adquirido, um sonho herdado de pais zelosos, de um herói da TV… um objetivo claro seja qual for. Uma meta. Isso é, sem dúvida, algo que todos podemos nos identificar. Agora eu poderia partir para o caminho mais curto e dizer que todos temos um sonho, que a Xuxa nos mandou seguir de forma incansável, que ‘o cara lá de cima’ vai ajudar e que se todos correremos um pouco, tudo cairá do céu e seremos felizes e aclamados debaixo de uma salva de palmas (que sempre começa fora de ritmo) como num final de filme dos anos 80. É o que todo manual de auto ajuda hoje diz: você deve fazer o que gosta. E esse é o caminho para o sucesso (ou ‘Mulheres, Automóveis, Mulheres, Iates, Mulheres, Mansões, Mulheres’ como diria Pica pau). Bom, permita-me parafrasear os Paralamas e estragar alguns sonhos (ao mesmo tempo em que pareço ainda mais babaca que o normal) dizendo que a vida não é um filme. E mais: só fazer o que gosta não vai te garantir nada e se você mede o sucesso pessoal como um episódio de Pica Pau você tem sérios problemas, meu amigo.

Porque tudo isso?  Em Whiplash, somos apresentados a história de Andrew Neiman, um rapaz de 19 anos com um sonho: ser um dos maiores bateristas de todos os tempos. E acompanhamos o meio para este fim com algumas (muitas) falta(s) de princípios.

Atrás deste objetivo, Andrew se inscreveu na melhor escola de música do país e rala pra estar no grupo dos melhores: a turma do professor Terence Fletcher (excelente J.K. Simmons). E aí reside a tensão central do filme: Fletcher tem um comportamento abusivo com seu (excelente) grupo de alunos. Eles formam uma banda que tem indivíduos sempre a flor da pele, tensionados por explosões de raiva, xingamentos, palavrões e até agressões físicas do mestre nada carinhoso.

Ai vem a encruzilhada… Sempre fico com pé atrás quando há uma resposta óbvia e o filme me deixou encucado com a tentação de apelar para o impulso de apedrejar (ou só) o professor. Porque encruzilhada? Pq vc pode concluir que o professor foi mau, o aluno foi uma vítima ignorante em todo o processo e ponto final. Ou vc pode tentar ir além.

Segui o coelho branco e nesse momento veio a questão: sem pressão, há grandeza? Sem concorrência, há crescimento? Há inovação? Paul não assumiu que a ‘richa’ entre Beatles vs Beach Boys, por exemplo, o motivou na produção de Sgt Pepper’s? Não é senso comum que as grandes guerras geraram saltos tecnológicos? Se não, como a velha estratégia do ‘nós e eles’ ainda funciona na motivação de grupos? Há como ser memorável sem suar muito? E depois mais ainda? Andrew realmente não sabia de nada e era um inocente?

Aqui cabe um parêntesis sobre a vida e o suor. (O cinema, seja na ficção ou nas versões de fictícias de histórias reais, nos acostumou a ver todo o suor dos protagonistas heróicos comprimidos em 45s passados fast foward com uma música de fundo. Isso pra mim ficou claro na última cena de A Procura da Felicidade, filme estrelado por Will Smith que é baseado na história de Chris Gardner. No filme, você acompanha o sofrimento do personagem por duas horas e quando ele encontra a felicidade (nas palavras do próprio) o filme acaba. Minha primeira reação foi pensar: ‘mas AGORA acabou? AGORA que ia ficar bom?’ E aí eu me dei conta de que o foco não era acompanhar os aplausos e os milhões que o sr. Gardner conseguiu durante sua vida. O foco era no sofrimento e na batalha de um homem para conseguir uma vida melhor para si e seu filho. Isso seria uma história que vale a pena ser contada. E isso não é fácil ou rápido para a grande esmagadora maioria da população mundial. Fim dos parêntesis suados.)

Acredito que se pensarmos na evolução pessoal, todos deveríamos ter um sonho e um plano para atingi-lo mas nem todos temos o primeiro e poucos têm os dois. Todos têm esperança de vida melhor mas poucos traçam uma meta e um plano para atingi-la. Neste filme o aluno tem ambos. Nota: ganhar na megasena não é uma meta. Nem um plano decente. 

ATENÇÃO: SPOLER! SE você não viu o filme, falarei a partir de agora de detalhes da história E do final. Siga por sua conta e risco 🙂

Acredito que o filme mora nos detalhes. Nos jogos mentais malucos do professor, em como isso se reflete na atitude do aluno, na sua evidente evolução técnica e no peso emocional (para Andrew) desses jogos. Até que chegamos ao diálogo no bar (1:17:50 a 1:23:05) e nos olhares na cena final onde motivações são desvendadas e a história se conclui.

Andrew e FletcherNa minha opinião a trama conta com 4 personagens importantes: Andrew e Fletcher que são aluno e professor. E, fora do eixo principal mas também importantes, o pai e a figura imaterial da escola.

No conservatório Shaffer, Fletcher circula livremente com seu comportamento agressivo e isso fica claro em uma cena específica que ele invade uma aula, faz críticas diretas aos alunos e sua técnica, faz audições relâmpago e retira um aluno sem ser questionado ou dar satisfação a ninguém. Nem mesmo ao professor que está naquele momento dando aulas a turma. O personagem de J. K. Simmons está solto. E está porque sabe que não conta com oposição. Ele tem nome, ganha concursos e traz resultados a escola, dita em um determinado diálogo, como a melhor do país. A escola permite.

Paul Reiser (ele mesmo, de Mad About You) interpreta Jim, o pai de Andrew. Um pai atencioso que mesmo enxergando maravilhas nos sobrinhos que jogam futebol americano não deixa de dar suporte ao filho em sua escolha. O personagem de Reiser aparece aberto e carinhoso nas sessões de cinema com o filho. Se mostra preocupado e irritado após a sequência acidente/apresentação/ataque que motivou a expulsão de Andrew e a denúncia ao comportamento abusivo de Fletcher. Está absolutamente compreensivo no período de fossa pós expulsão do rapaz e mostra um timing impressionante durante a cena final. Seja ao correr para o resgate, ao dizer “Vamos pra casa” depois da catástrofe inicial, ou ao permitir a volta do filho sem hesitar ou ao admirar, impressionado, o solo de Andrew em ‘Caravan’. O pai dá suporte a escolha do filho apesar de não concordar com os excessos.

Andrew é o aluno determinado e mostra, na conversa com a namorada (que logo vira ex), ter planejado com detalhes os passos para atingir seu sonho. Ele já sabe quem é Fletcher antes mesmo de encontra-lo e certamente sabe de toda a loucura que envolve estar em sua turma, a Studio Band. Desde o primeiro encontro ele é desafiado e, como acontece a cada vez que é confrontado, responde com mais esforço, mais dedicação e mais sangue (!) para se superar. E sempre que se vê ‘tranquilo’ é novamente fustigado a ir além e o ciclo se reinicia. Ele “entra na pilha” pra atingir as expectativas e ser perfeito. Agora me diga: é possível dizer o quanto ele mudou seu comportamento pela própria atitude em relação ao sonho e quanto ele se tornou assim por reação ao professor? É possível separar? E a denúncia, ela acontece por não concordar com o método ou por pressão do pai e remorso pela expulsão? Andrew não é um herói clássico. É um jovem com talento, com dúvidas e disposição pra mudar seu futuro seja aturando os excessos do professor seja confrontando o mesmo.

O gritoE então chegamos a Terrence Fletcher. O professor, que até a cena do bar não externa nenhuma motivação, mostra uma capacidade de mapeamento de cenário espetacular ao criar um grupo com excelente material humano, tensão extrema (vide a apreensão da turma aguardando o segundo exato de entrada na sala), competitividade no teto e conhecimento de quais botões apertar para levar seus comandados ao limite. Vale observar que seus gestos ‘não agressivos’ são apenas para ganhar munição e ser ainda mais direto e babaca em seus xingamentos. Fletcher é um idiota 24×7. E aí, chegamos ao bar.

No encontro dos personagens no bar, os motivos começam a aparecer. Lá o (ex) professor diz que “foi saído” da escola e despista o a identidade do responsável. Ele “abre o coração”, fala que seu papel é mal compreendido e que ele está lá para levar os alunos além do que se espera deles (“push people beyond is expected of them”). Amargurado, ele cita mais uma vez a história de Charlie Parker que após ser humilhado no palco voltou um ano depois para aclamação em uma apresentação épica. Neste diálogo Fletcher deixa claro que só enxerga ser possível encontrar um ‘fora de série’ debaixo de uma pressão desproporcional e lamenta nunca ter revelado um em suas turmas mas não questiona nem por um segundo seu método. Fletcher acredita nisso (tirando a parte do processo) e Andrew compra o discurso do ex-mestre e a honestidade do convite para comandar a bateria na apresentação no JVC Jazz Festival dali a pouco.

E é essa apresentação o ápice do filme. Momentos antes da entrada, Fletcher exalta a plateia do Carnegie Hall que ‘pode mudar sua vida com um telefonema’ e mais uma vez ele parece simpático ao convocar todos ao palco com “Let’s have fun.” Novamente Andrew se vê ‘confortável’ com o professor e mais uma vez vem a pedrada. Se a armadilha de deixar seu baterista em frente a uma casa lotada sem partitura de uma música que não conhece já é cruel, o professor tem o requinte de avisar segundos antes do início que sabia ser ele o aluno responsável pela sua expulsão da Shaffer só para ver a esperança sumir do rosto do rapaz.

Bateria moendo!E seguindo os ciclos anteriores, é aí que um processo de amadurecimento de Neiman termina. Ele que já tinha engolido o choro sem reação e depois confrontado o professor de forma tímida, foi mais ríspido antes do acidente e totalmente descontrolado depois dele. Mas sozinho na cena final sem ter a que recorrer ele tenta o possível, desaba ao fim da música, sai, engole o choro e volta para o confronto, para o tudo ou nada. Se antes ele respondeu com violência agora ele responde, ‘na bola’.

Andrew volta e apresentação de ‘Caravan’ é consegue ser absurdamente envolvente. Palmas para o diretor, editor e para o ‘cara do som’. A tensão na troca de olhares entre baterista e regente diz tudo. E vale destacar que durante o solo Andrew é a única pessoa que sorri enquanto está tocando um instrumento em todo o filme. Enfim ele está se divertindo. Ele não se intimida com nova ameaça de Fletcher, arrisca tudo, consegue ‘reger’ o grupo e vê aí a atitude do professor começar a mudar. Ele começa a coordenar demais instrumentos com semblante mais satisfeito mas só consegue enfim sorrir (e achei genial a decisão de não mostrar de forma direta) ao final de uma canção de quase 10min com um solo de bateria (pasmem!) alucinante e envolvente. Nesse momento não há dúvidas que todas as crueldades levaram Andrew além do limite, a uma apresentação sublime. Foi planejado por Fletcher ou uma reação inesperada? Ele realmente acredita que ‘o novo Charlie Parker’ nunca desistiria ou foi surpreendido com uma bomba? Voto na surpresa.

Será que Ultra está certo e, de fato, o amor não constrói nada? Será que a figura fomentadora mesmo que abusiva de Fletcher é necessária? Os fins justificam os meios? Se sim, há como desenhar uma linha para evitar o comportamento excessivo? Um ambiente ultra competitivo é dado a desvios extremos e deixar um sujeito como ele ‘sem coleira’ não poderia ser a regra… ou seria esse o preço da genialidade? Um “especialista” daria uma resposta certeira que solucionaria todos os problemas da humanidade (no papel)… mas eu nunca te prometi nada, não é?

Então convido você a refletir, e se quiser voltar aqui pra discutirmos… Good job!

3 comentários sobre “Um fim, um meio e um princípio.

  1. Cara…curti seu texto! Curti msm e confesso q me deu um alivio por enxergar nele grande parte do q ja tinha repensado ao final do filme! Minha primeira reaçao aos rompantes do professor? Que cara debil mental, ele tem problemas…mas passado o susto/choque, eu nao ficava mais “com raiva” dele…e ai comecei a encanar q a problematica era EU! Hehehehe! Acredito mto na filosofia do “qdo um nao quer, dois nao brigam”, entao sou levada a acreditar q o aluno nao soh estava ciente de td, como concordava/corroborava com o metodo adotado por ele… Claro q nem tds os problemas da vida sao resolvidos nesse grau de intensidade de sofrimento, mas tb nao acredito em “alcançar objetivos” sem sacrificio…sem sangue, suor e lagrimas (no caso dele, bota sangue nisso)! Enfim, cada um sabe onde o calo aperta, cada um conhece seu proprio limite (ou esta em busca de descobri-lo)… Cheguei a conclusao q cada vez q discuto sobre esse filme, mais gosto dele! Heheehehe! 😉

    1. Muito obrigado, Maria Eugênia! rs
      Acho que esse tipo de obra obriga um debate posterior. Principalmente pq parece óbvio demais pra ser questionado.
      Aliás, terminei tão pilhado que baixei a trilha no iTunes pq tem AS versões do filme e não a versão original ou uma versão, ou a versão da Academia de cinema que vai ser tocada no Oscar… A VERSAO DO FILME! hahahah
      Muito obrigado pela leitura e pela opinião.

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